Pelos

Lara Thomazini
3 min readJul 10, 2020

Um dia, descobri que minha casa era branca demais para dois homens. Havia pelos na pia branca, no chão branco, nos lençóis brancos, na parede branca, na bancada branca da sala. Encontrei-os boiando no leite e nas claras de ovo. Caíam da minha pele branca enquanto andava. Pelos pretos, crespos, gritando meu estado de espírito.

Comprei lençóis marrons, mantive a pia imunda. Os lençóis impregnaram de colônia. Não sei de quem. Lavei os lençóis todos os dias e eles desbotaram. Primeiro, mancharam. Depois, ficaram beges. Depois, brancos.

Insinuei aos homens que não gostava de pelos. Rasparam os corpos. Mas os pelos saíam das orelhas e dos narizes, cabeças, barbas, pênis. Um dia, encontrei pelos na bolsa enquanto procurava as chaves. Tufos. Enrolados na costura.

Para que não suspeitassem um do outro, deixei meus pelos crescerem. Os pelos são meus, diria. Olhem meus pelos. Despontaram pretos e curtos, promissores, mas cresceram louros e lisos. Só eram visíveis no contraste com a minha pele, nenhum outro branco servia. Caíam e não se viam mais. Louros, lisos e egoístas.

Aspirei a casa pela manhã. Aspirei à noite. Gastei todo o meu dinheiro em filtros de aspirador. Contratei um caminhão de mudança para levar os sacos de lixo ao aterro. Mas os pelos caíam toda vez que abria as páginas brancas dos livros. Eu os via na tela branca do computador, os sentia entre meus dentes, espirrava quando chegavam perto do meu nariz.

Exausta, fiz um vestido novo. Costurei pelo a pelo, percebendo as nuances de cada um deles formando uma trama elegante. Meus dedos criaram calos e sangraram. Os pelos mais grossos e escuros formaram um corselet. Os mais claros e lisos, a saia. Usei o vestido dos meus dois homens para um casamento. Ele não se desmanchou.

Fui deixando os pelos tomarem conta da minha casa branca. Aos poucos, formaram uma camada fina no chão. Um deles elogiou meu novo carpete. Transou comigo ali mesmo. No inverno, me cobri com eles. Viraram esfoliante no banho, enrolados no sabonete. Tempero. Almofada. Cílios postiços.

Não sei como não perceberam. Enrolavam-se nos pelos um do outro sem saberem. Comentavam da maciez da minha casa, das cócegas enquanto dormiam, do novo sabor da comida. Fui percebendo que se desfaziam cada vez mais em pelos, começavam a emagrecer. Como um presente, toda a energia dos seus corpos era usada para produzir cada vez mais pelos para mim. Definhavam. Transformavam amor, tesão, ou o que quer que sentiam por mim, em pelos. Gozavam pelos. Respiravam pelos. Quando riam, cuspiam pelos.

Um deles fundiu-se com o sofá. Os últimos ossos do seu corpo transformaram-se em pelos ali mesmo, na minha frente. Dormi nele aquele dia. Descobri que era sua a colônia. O outro foi ralo abaixo, no banho. Puxei-o de volta com um desentupidor.

No dia seguinte, abri as janelas. O vento levou os pelos como uma nuvem de insetos, poluindo o céu de São Paulo. Soube que choveram em algum lugar perto do litoral. Demorei a me acostumar com a brancura da casa, da pia, do chão, dos lençóis, da parede, da bancada, do leite, das claras, das páginas dos livros. Meus olhos doíam. Tive dor de cabeça por dias.

Encontrei o último tufo dias atrás, quando senti cheiro de queimado e o descobri enrolado no arame quente da geladeira. Recuperei o que era possível, cortei em pedacinhos bem pequenos e aspirei.

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